terça-feira, 20 de julho de 2010

Sétimo Capítulo

(Pedindo as desculpas a nossos fiéis leitores, trago a público o sétimo capítulo da saga novelística humildemente lançada pelo UPOP e feita com vossas contribuições pertinentes. O atraso se deveu a meu tratamento contra o câncer - o signo, não a doença. Ok, foi porque faltou tempo mesmo. Mas prometo - juro - que voltaremos à assiduidade típica de nosso pobre mas limpinho espaço internético.)

Capítulo VII

Após alguns dias de intenso trabalho, noites sem dormir, refeições feitas às pressas e imprensa no meu encalço, resolvi comemorar com minha equipe  mais uma vitória no tribunal em um bar qualquer dos Jardins. Comemorava não só aquela vitória, mas todo um período de prosperidade e ascensão profissional. Eu era o homem da vez, o advogado que todos queriam ver, ouvir e ter ao lado. Eu era um sucesso: invejado, respeitado, admirado por colegas, mestres e alunos.

Comemorando, entre ema bebida e outra, entre risos e tapinhas nas costas, disfarçava uma angústia crescente, um incomodo íntimo que me fazia sentir como se vestisse uma camisa três  números menores que o meu, como se as paredes ao meu redor estivessem se fechando. Esse incomodo, meu filho, vinha daqueles olhos que me olharam fixos durante o julgamento, que por um segundo pensei terem me reconhecido e que nesse segundo fez ressurgir todo meu passado.

Eu tentava. Tentava não pensar, não lembrar, mas ela estava ali e quanto mais bebia, mas eu a via, mas longe no tempo eu era levado. De repente voltar para casa, para os braços de sua mãe era a última coisa que eu queria fazer e naquela noite não o fiz.

Saí do bar e me perdi pelas ruas da cidade, dirigi durante horas, sem rumo em uma rota de fuga que não levava a lugar nenhum porque inútil fugir de mim mesmo e do meu passado. Parei quando não podia mais manter minhas mãos presas ao volante, quando meus olhos não mais podiam manter-se abertos e entrei numa padaria qualquer. Já amanhecia, a cidade acordava e o movimento no balcão era intenso. Pedi um café, minha cabeça girava, alucinado via em todos os rostos aqueles olhos azuis, profundos, grandes e tive certeza de que aquela mulher não me deixaria em paz. 

Eu precisava descobrir quem era ela, quem era a mulher em cadeira de rodas, pele e olhar fenecidos e mãos abandonadas, inertes nas coxas, mas que no entanto ainda erguia, altiva os mesmos olhos voluptuosos. Era preciso voltar ao inferno pelo tortuosos caminhos do paraíso.

Das semanas que se seguiram só me lembro do cheiro úmido do quarto de hotel, da minha cara amassada no espelho, dos telefonemas conformados de sua mãe, da busca frenética por pistas e rastros daquela mulher. Não me lembro do quanto gastei, das desculpas que dei para a ausência aos inúmeros compromissos. Era como se o mundo tivesse  parado até o momento em que finalmente estacionei o carro em frente aquela casa na Serra da Cantareira, toquei a campainha  e tudo começou a fazer sentido.


 (Tânia, muito obrigado. Benedito, o próximo: boa sorte.)



quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sexto Capítulo

(Festejai, leitores. Chega a nossa redação o sexto capítulo da medioválgel saga novelística. O próximo capítulo, por indicação da Bruna Nehring, que nos brinda com a participação abaixo, será apresentado pela Tânia Tiburzio, que publica aqui. Ouçamos.)

Capítulo VI

Algemas

À minha volta, jovens estavam sendo domados a cacetadas, presos, imobilizados, levados para viaturas, algumas até sem identificação. Não hesitei, voltei a correr a esmo, para que ninguém me encontrasse, para que ninguém me colocasse perante a morte, o horror, o vazio. Pelas ruelas em que me meti, enquanto a fuga era mais cerebral do que física, espiava para encontrar uma farmácia, um mercado onde comprar um vidrinho de álcool, um esparadrapo que fosse, para estagnar o sangue que escorria da face para dentro da boca, e do queixo para o peito nu, como num cristo flagelado.

E se Simone também fizesse parte daquele caos...aqueles olhos lindos cabiam muito bem naquela confusão; aquela vida devassa a que seu espirito livre a levava, poderia sim pertencer àquele tumulto. Continuei correndo sem olhar para traz. De repente um edifício acabou o meu caminho. Sem portas, sem janelas, uma construção imensa, impessoal, sem identidade. Sentei no chão segurando minha cabeça entre os joelhos. Mesmo que quisesse fugir, às minhas costas estavam os três metros de altura de uma parede perfeitamente lisa. Hoje sei que aquele muro foi o impacto de que eu precisava: minha vida ainda era uma trilha, não um caminho.

Sentia-me irreconhecível. Mal refreava o soluço por alguém que ainda desejava com todo meu ser, que me havia levado à loucura, mas que agora jazia em algum lugar desconhecido, transformado num nada irrecuperável. Esforçava-me para identificar se aquela paixão pela qual ainda arquejava dolorosamente era realmente amor ou orgulho ferido. Havia sido tratado como uma refeição sem o requinte do paladar, assim como eu fizera com dezenas de garotas que eu sabia apaixonadas por mim. E agora, quem era este homem... não mais um rapaz, não mais o eterno estudante que vivia alegremente da gorda pensão de alguém que o aceitara como filho; e filho de uma mãe manipuladora com quem havia aprendido a fraudar a vulnerabilidade humana; eu era alguém que participava de protestos para um mundo de mais fraternidade, mais equidade, mais liberdade, mas sem muita convicção, da mesma forma inconsistente em que vivia meu dia a dia. Agora sentia-me foragido, perseguido; havia escapado das algemas do Doicoi, e agora era preciso desvencilhar-me das algemas familiares. Não mais manhas maternas: ela teria que aprender a respeitar-me - e quem sabe a amar-me - por aquilo que eu me tornaria. Ser sem dever.

Jamais havia olhado para o meu futuro, nem de relance. Quase formado ainda não havia-me perguntado como se começa a ser advogado...um estagio num escritório já estabelecido abriria o caminho ou é preciso começar como continuo? Mas é mesmo advogado que eu queria ser, ou um homem de negócios bem sucedido. A formação acadêmica ajudaria na hora das negociações, nas argumentações. Conseguir respeito é importante, não basta deixar as meninas de queixo caído esbanjando cultura, escalando classes sociais e prédios de luxo. Qualquer que viesse a ser minha profissão, era preciso credibilidade. E eu ali, num beco, de cócoras, sujo, ensanguentado, sem camisa. Há horas sem levantar, sem retornar às ruas, sem coragem para ver se o tumulto havia-se diluído, sem conseguir me recompor para atravessar a portaria a caminho de meu apartamento e desabar finalmente na cama.

Aquela noite, aquele lugar. Horas de angustia e ao mesmo tempo de abandono, incapaz de abraçar um recomeço decente. Sem saber ao certo onde me encontrava e ainda transtornado na dúvida se deveria voltar onde havia visto a maca com aquele corpo. Talvez fosse bom repassar por lá, reentrar naquela realidade: a morte da Simone estava quitando minha indecência, minha inconsistência, meus pecados. Aqueles olhos azuis estavam fechados para sempre, e para sempre meus dias sem rumo. No meu mundo, subitamente vazio, precisava traçar um começo novo, definido e definitivo. E aprender a livrar-me da perdição encontrada naquilo que parecera só um olhar irresistível; livrar-me daquele inferno que o destino havia colocado à minha espera numa tarde de abril; que havia-me atormentado de desejo e de ciumes durante tanto tempo...somente um par de olhos voluptuosos... Só alguns anos depois houve um dia em que os revi, aqueles olhos azuis.

Foi quando, no julgamento de peculato de um ministério qualquer, entrou uma testemunha chave: em cadeira de rodas, pele e olhar fenecidos, mãos abandonadas nas coxas, palmas para acima. Vi que o sobrenome não batia, mas os olhos estavam lá. E como naquela noite do corre corre no Largo de São Francisco, eu fingi que não vi, não notei, não reconheci. Naqueles dias de tribunal não quis investigar se poderia ser ela, se aquele corpo poderia ter sido salvo. Não queria alimentar o desejo de que ainda existisse um caminho que me levasse de volta ao paraíso, e me agarrava à esperança de poder fugir daquela visão que ainda me trazia o medo do inferno.

Sua mãe, meu querido, já era há alguns anos, a razão e a paz de minha vida e você, a caminho, minha serenidade. É muito importante meu filho que ao enfrentar o inesperado você aprenda a recorrer à sua memória: sofra desenterrando a dor e faça o balanço do seu eu atual. E seja severo consigo mesmo, seja firme em suas decisões e não enfraqueça.

Eu tentei.

(Bruna, muito obrigado. Tânia, boa sorte).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Glória a Deus

Provavelmente quem acessa meu blog também acessa o Não Salvo, onde vi esse vídeo e resolvi repetir.


Um pastorzinho de merda que se aproveita de um público ignorante para ganhar dinheiro espalhar seu testemunho de fé. Esse tipo de vídeo faz com que cada dia mais eu sinta nojo de qualquer religião.


">


Interessante, claro, são os religiosos falando mal do pastor e citando para isso trechos da Briba, como esse:


Se lessem a biblia, nao pagariam este mico:
Levítico 
19:31 Não vos virareis para os adivinhadores e encantadores; não os busqueis, contaminando-vos com eles. Eu sou o SENHOR vosso Deus.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quinto Capítulo

(Com um pouco de atraso, é verdade, mas temos a honra de publicar o quinto capítulo dessa emocionanete novela literária. Foi escrito pela Sandra Schamas, que colocou na roda a Bruna Nhering, para fazer o sexto capítulo. Aproveitem.)

Capítulo V

Insone

Ela estava com um grupo de estudantes do segundo ano e alguém nos apresentou. À noite, insone, eu vasculhava os lençóis e revirava o travesseiro quente, pensando nela. Perdi a noite sem chegar à nenhuma conclusão sobre o que me atraía em Simone.

No dia seguinte, na faculdade fiquei distante, esperando que ela me abordasse. Quando finalmente se aproximou, me olhou como quem olha um sapo morto e disse que precisava de umas aulas particulares de Teoria e Filosofia do Direito. Aceitei. Fui até o apartamento que ela dividia com uma amiga, sentamos frente a frente à mesa da sala de jantar. O relógio de parede tiquetaqueava lento e eu podia ouvir o som do meu deglutir. Na primeira aula, em nenhum momento ela levantou o olhar enquanto lia pausadamente o texto que eu indicara. Aquela voz suave entrava em  mim como uma doença, impregnando meu corpo e fazendo minha cabeça girar. Lembro-me muito bem de ter pedido um copo de água, ela foi até a cozinha descalça e voltou com o copo na mão. Fiquei perturbado.

Nas aulas seguintes, a mesma coisa: a sala de jantar, o relógio, o copo de água, a maldita indiferença. Mas, um dia, quando me levantei para ir embora, ela também se levantou, passou a mão nos quadris, nas coxas e perguntou se eu queria ir até o quarto. Assustei, mas fui atrás dela. O papel de parede era de flores verde limão e laranja, acima da colcha indiana havia um móbile e perto da janela, pôsteres do Jimmy Hendrix e Che Guevara. Ela revirou uma gaveta, pegou fósforos e um saquinho plástico. Ligou a vitrola portátil e pôs um LP de vinil importado: Rolling Stones. Depois acendeu um incenso e as velas que decoravam a cômoda, atirou-se na cama, ajeitou as almofadas, acendeu o baseado com toda a calma do mundo e comungou-o comigo. Pouco tempo depois, estávamos entregues a um desejo desatinado, o que não me impediu de olhar bem dentro dos seus olhos enquanto a beijava. I can't get no satisfaction  I can't get no satisfaction 'Cause I try and I try and I try and I try I can't get no, I can't get no…

E assim foram algumas tardes de estudo e, quando percebi, estava totalmente obcecado. Eram tempos difíceis de ditadura, principalmente no Largo São Francisco, onde os estudantes se reuniam para protestos e, quase sempre, acabavam na cadeia. As pessoas desapareciam, o DOPS – que era o temível Departamento de Ordem Política e Social – invadia a casa das pessoas atrás de ‘subversivos’, era muito difícil a gente se reunir. Entretanto, as tardes no apartamento de Simone me faziam esquecer a repressão que engrossava o ar. Totalmente iludido num conceito ultrapassado de que ela era a mulher da minha vida, resolvi aparecer sem avisar. A porta estava aberta, estranhei. Pensei em deixar um bilhete sobre a mesa. Teria sido melhor. O som alto vinha do quarto dela. Fui até lá para testemunhar uma cena conhecida,  como se eu mesmo fosse o protagonista dela. Assisti tudo até o final, achando que aquele homem só podia ser eu e que ela era só minha. Fiquei até que os olhos dela encontrassem o meus.

Simone era a imagem da contracultura, da era ‘paz e amor’. Adepta ao amor livre, ela me fez reavaliar o que eu achava que era liberdade. Por um tempo, fiquei sozinho. Senti na pele o desprezo, aquele mesmo que eu adorava dar e, sem saber direito quem eu era, me esgueirei nos movimentos contra a ditadura, talvez imbuído pela sensação de deslocamento que Simone me deixou. Participava de manifestações e passeatas, queria, como muitos, ver um mundo mais justo.

Numa quinta-feira, eram onze da noite, perto da faculdade os estudantes protestavam , batiam nos vidros dos carros, gritavam:  “Mais pão, menos canhão!” Simone passou cortando a multidão, de certo queria atravessar o largo para pegar o ônibus, pois não fazia parte daquele tumulto. Fingi que não vi. De repente, a polícia!  Corre-corre, pancadaria, levei uma cacetada bem na sobrancelha. Tirei a camisa, coloquei em cima do ferimento que sangrava muito e me escondi entre dois carros até a confusão se acalmar. Veio ambulância. Quando cheguei perto tentando pedir ajuda, lá estava a maca sendo colocada no interior do veículo e em cima, o corpo de Simone.

(Sandra, muito obrigado! Bruna, boa sorte.)