Um grupo de crianças. Uma tábua, um prego passado com a ponta pra fora. Um prego grande. Pilha de tábuas, molhadas por causa da chuva. Um sapo sobre uma tábua. Um menino com a camisa do Vasco da Gama ri muito enquanto coloca o prego cuidadosamente apoiado nas costas do sapo, com cuidado para não perfurá-lo. Não ainda. Por curiosidade ou covardia, outro menino apenas observa assustado, arrumando os óculos. O menino com a camisa do Vasco corre, gritando, pula com força pra cima, e numa precisão absurda pousa os dois pés sobre a tábua com o prego sobre o sapo.
Todos riem, mas é possível que nem todos estejam achando graça. Um sapo foi pregado. Só depois disso foi esmagado. Numa fração de segundo, o sapo foi uma espécie de jesus, pregado numa cruz de malta. Todos gritam. O pai do vascaíno é vascaíno. Ele não diz “vasco”, ele diz “vashco”. “Torço pro vashco”.
(O tipo de coisa que só tem graça pessoalmente. Faça um esforço pra imaginar.)
Dalton precisava ir embora. O truco estava bom, estava divertido. Mas sua namorada sairia da academia às 22:00 e ele precisava buscá-la. Dalton anunciou que iria. Fusca, na hora, lembrou que precisava comprar um remédio e, como estava sem carro, pediu o de Dalton emprestado – coisa rápida, 10 minutos. Como eram 21:40, Dalton considerou que daria tempo tranquilamente.
Às 22:00, Dalton se mostrava um pouco preocupado com a demora de Fusca. Às 22:06, a namorada de Dalton liga pela primeira vez. “O Fusca foi na farmácia, já volta, já já estou passando aí.”
Às 22:11, a esposa de Fusca liga pra ele, e percebe que seu celular está tocando dentro de casa, ele tinha esquecido de levá-lo.
Às 22:18, Dalton demonstra uma certa apreensão: “vou enfiar a mão na cara do Fusca”.
Às 22:22, a terceira ligação de sua namorada: “vou enfiar a mão na sua cara”.
Às 22:31, Fusca aparece. Estaciona lentamente. Abre a porta lentamente. Olha para todos lentamente. Lentamente, diz “nooossa... a fila tava enooormeee...”
Dalton não cumpre a promessa, apenas empurra Fusca para fora do carro (ele continuava sentado no banco do motorista) e sai.
A esposa de Fusca: “Porra, Fusca, você sabia que o Dalton precisava do carro.”
Fusca: “Eu vou fazer o quê?!”
Esposa: “Você disse dez minutos, levou cinquenta!!”
Fusca: “Eu vou fazer o quê?!”
Esposa: “Ele ficou fodido da cara com você!”
Fusca (variando): “O quê que eu vou fazer?!”
Esposa: “Como você pode ser tão irresponsável?”
Fusca: “Eu vou fazer o quê?!”
Até agora não sei como a discussão terminou. Nem o que Fusca pôde fazer. Mas até hoje a frase é repetida por todos, num falsete cômico, em homenagem a todo e qualquer raciocínio rápido.
“Jair. Vou embora porque não aguento mais você só me bate e fica dando chingos. Eu te amo. Tina.”
Depois de tantos anos, não consegui esquecer o recado que Tina deixou para Jair quando o deixou. As melhores poesias são as frases escritas e ditas sem intenção poética. Isso foi escrito na capa de um disco do Nazareth. Meu amigo emprestou o disco de outro amigo que ganhou de outro amigo... De amigo em amigo, acabei tendo o disco em mãos. Não sou perito mas arrisco dizer que a escrita tinha pelo menos uns dez anos.
Tina amava Jair. Tina já tinha tentado falar com Jair sobre as agressões. Tina pediu conselhos a sua mãe, à melhor amiga e a colegas de trabalho. Ela não queria de verdade ouvir a resposta, mas o veredicto de todos foi o mesmo: Jair era incorrigível. E também disseram a Tina que “mulher apanha uma vez porque o marido quer, mas na segunda é porque a mulher gosta”.
Tina ainda resistiu mais algumas vezes. Se fossem só os tapas talvez ela ficasse. Mas ela preparava doces para Jair. E Jair chegava bêbado e batia nela. Mas Jair fazia pior. Jair dava “chingos” nela. Isso, sim, era inaceitável.
Então Tina, com toda a dor que sentia, humilhada por Jair — e ainda assim amando Jair — tomou a decisão. Iria mesmo embora. Não brigaria pela casa, não havia filhos. Voltaria para a casa de sua mãe, que a criou sem pai. Mas Tina não era mulher de ir embora sem deixar claro o motivo.
Tina olhava os discos e lembrava de tudo o que havia passado com Jair. Na primeira vez que se encontraram, na discoteca, e foram apresentados por uma amiga em comum (que depois Tina descobriu ser ex-namorada dele). E Tina lembrou que tocava “Love Hurts” no momento em que dançaram.
Com um ano de namoro, Tina comprou o disco duplo do Nazareth para presentear Jair. Dançaram juntos inúmeras vezes e Tina às vezes chorava quando lembrava de como no início tudo era bom.
Lentamente ela procurou uma caneta. Demorou a encontrar, mas havia uma Bic azul no fundo de uma gaveta que há muito tempo estava fechada. Meio enrolada em um terço de madrepérola. Teve que riscar várias vezes o canto da capa para que a caneta soltasse tinta. E funcionou.
Então Tina foi direta. Não queria subentendidos. Não queria que Jair ousasse fingir que não sabia do que ela falava. Com todas as palavras, mas só as necessárias: “Jair. Vou embora porque não aguento mais você só me bate e fica dando chingos”. Jair saberia do que ela estava falando.
Mas faltava alguma coisa. Jair era dissimulado. Ia sair dizendo pra todo mundo que Tina tinha ido embora porque “arranjou outro macho”. Que ele sempre soube e estava certo quando gritava duvidando da fidelidade de Tina.
Então Tina aplicou o golpe final: “Eu te amo”.
Tudo o que qualquer pessoa poderia dizer em situação semelhante foi dito por Tina. Tina foi sábia como poucos. Tina amava Jair. Mas amava mais a si mesma.
Love hurts, Love scars, Love wounds' and mars Any heart not tough or strong enough To take a lot of pain, take a lot of pain Love is like a cloud, it holds a lot of rain Love hurts
(minicrônica antiga e cretininha só pra não ficar sem postagem)
O Mauro estava bêbado e queria beber mais. O Fusca (também bêbado) se aproximou dele e deu-lhe conselhos. Não faça isso, olha tua saúde, o que os outros vão pensar etc etc. O Mauro, que realmente estava muito bêbado, aceitou os conselhos do Fusca. Convenhamos que o Fusca não seja lá o sinônimo de bom conselheiro ou de rapaz provido de retidão. Não se controla nas festas nem é lá assim um senhor maturidade. Mas o Mauro, além de aceitar os conselhos, agradeceu e disse ao Fusca que ele era um grande amigo, que tinha sido importante ouvir as palavras dele.
Pois o Mauro, uma semana depois, estava severamente arrependido.
- O Fusca é foda.
- Porque?
- Eu tava lá no Mundo, conversando com umas amigas. Ele chegou, tava bêbado, o desgraçado, me puxou e disse “você consegue coisa melhor, Mauro. Na boa.” Na frente das meninas.
- Puts.
- E as gurias com aquela cara.
- Puts!
O caso é que o Fusca começou a sentir-se como o protetor do Mauro. O Mauro não podia espirrar que o Fusca lascava um conselho. Outro dia, no Bagdá, o Mauro estava tocando com a banda dele. No intervalo, chega na mesa. O Fusca só olhando. O Mauro acende um cigarro. O Fusca faz cara de quem não aprovou, embora também seja fumante. Mas se contém. Alguém pergunta da banda. O Mauro vai responder, o Fusca corta:
- Eu acho que o Mauro tinha que se impor mais.
- Ãn?
- É, mostrar que ele é o cabeça da parada. Você tem capacidade pra isso, viu, Mauro?
- Do que você ta falando?
- Eu sei que você curte um som assim-assado. Devia impor pros caras. Acredita no teu som, meu!
O Mauro termina o intervalo e volta pro palco. O Fusca lá, olhando, dessa vez com cara de quem está vendo o filho aparecer em público pela primeira vez.
- O Mauro é como um irmão mais novo pra mim. Gosto desse cara.
- Mas você é mais novo que ele.
- Nada a ver.
E agora o Mauro tem que ficar aguentando o Fusca e suas filosofias e psicologias. Como normalmente o Fusca está consideravelmente (muito) mais bêbado que o Mauro, isso tem se tornado um problema.
Quando um bar está muito cheio, normalmente as pessoas esperam um pouco até liberar uma mesa. Não demoraria demais, não havia muita gente de pé. Mesmo assim, o outro bar tinha uns amigos cuja companhia me agrada.
II. De uma lembrança
Quanto eu tinha uns 16 anos, frequentava festas de rock. Muita gente de preto, muita bebida, muito rock mal tocado.
III. De outra lembrança
Um ex amigo me emprestou um CD, o qual não devolvi no prazo estipulado.
IV. Do outro bar
Muita gente de preto. O blues é bem tocado. Um primeiro bêbado tenta se apoiar numa lixeira. No chão, o primeiro bêbado e a lixeira. Estou conversando com um homem que tem cabelo de um lado e é careca do outro. O bigodinho é novo: eu digo que lembra Hitler. Ele observa que seis pessoas já disseram isso, que ele está fazendo uma contagem. Outros disseram que ele parece Chaplin. Que se eu via Hitler eu deveria repensar as coisas pelas quais me interesso. O primeiro bêbado se aproxima: “desculpa, não queria incomodar... é foda... tô de cara... mulher, você sabe, é foda... tô de cara”. É foda.
V. De um adendo à outra lembrança
O ex amigo tem amigos. Muitos. Roqueiros. Que sabem que não devolvi o CD. Vestem preto.
VI. De um sufoco
Existe um caixão encostado numa parede. A namorada do amigo entra no caixão e sai rápido: “sufoca”, observa.
VII. De um pingente
Um homem se pendura na luminária. É o homem que Chaplin me apresentou como dono do bar. Ele está pulando em cima da bancada de atendimento. Os clientes vão ao delírio. A banda vai ao delírio. Ele vai ao delírio. Ele bate a cabeça no teto. Eu vou ao banheiro.
VIII. Do banheiro
Nos acampamentos, banheiros e cinzeiros são o mundo todo: um carreirinho por entre o matagal que abre numa clareira. Eis o banheiro do bar. Existe outra opção: aguardar uns 40 minutos no único banheiro construído para esse fim. Unissex.
IX. De um temor
“Talvez eu morra”. Este é o tom da mensagem de celular que enviei.
X. De uma gordinha
Estou voltando do caixa para a mesa onde estava sentado. Há duas portas. Pretendo sair pela porta da esquerda. Uma gordinha dá um passo à esquerda. Desvio. Ela dá outro passo à esquerda. Passo.
XI. De uma expulsão
Um homem não seguiu as regras do bar (desconheço). É expulso gentilmente.
XII. De uma observação pertinente
“É o que dá se envolver com juvenil”, diz a namorada do expulso.
XIII. De um intelectual
Chaplin está lendo um livro de Paulo Leminski num canto do bar.
XIV. De um esportista
A multidão se abre. Não é briga. Chaplin passa pedalando (!) em meio à multidão.
XV. De uma decisão
Vamos embora.
XVI. Do primeiro bar
Um homem grita na mesa de trás. “Essa não, essa me faz lembrar minha amada. Aí eu tenho vontade de chorar. Toca outra, toca outra”. A dupla prossegue.
XVII. Da quase conclusão
Um carro está batido num poste. Volto para verificar se o motorista está vivo. Está vivo. E bêbado. E ao celular. “Bati o carro num poste, pô. Bateu, tá batido. Não estou te ligando pra ouvir opinião. To sozinho, agora chegou uns amigo meu aqui”. Pra mim: “mulher é foda.”